Apiúna SC
A monumental arquitetura do antigo Posto de Fiscalização da Fazenda Estadual, localizada na marginal da BR 470, no município de Apiúna, sempre chamou nossa atenção pela plástica, forma e o desafio que apresenta na sua forma estrutural, com os grandes balanços – construída com peças cerâmicas. Já fotografamos inúmeras vezes, e também foi inspiração de projetos nossos, mesmo sem conhecer com profundidade a técnica construtiva adotada.
Além da arquitetura com uma plástica e técnica construtiva diferenciadas, ao observar o mapa de localização mais detalhadamente, detectamos o projeto do entorno do edifício, a partir de um eixo e este ocupa o outro lado da rodovia, com a presença de espaços para lazer e esporte, como também de estacionamentos de veículos de grande porte, talvez caminhões de transporte de produtos. É visível locais de quadras esportivas, campo de futebol, caminhos e resquícios de paisagismo. Retornaremos ao local para fazer imagens reais desta parte do projeto, que sempre passou desapercebido.
O projeto arquitetônico e estrutural do antigo antigo Posto de Fiscalização da Fazenda Estadual de Apiúna, de acordo com informações da Prefeitura Municipal de Apiúna, foi assinado pelo engenheiro estrutural uruguaio Ariel Valmaggia. Temos nossas dúvidas. O projeto é do ano de 1979. De acordo com o Site da Prefeitura de Apiúna, publicado em 14 de janeiro de 2021, há preocupações e estudos para ocupar esta obra de arte plástica e arquitetônica.
“Na tarde do último dia 11 de janeiro de 2021, o prefeito Marcelo Doutel da Silva esteve com uma equipe técnica da prefeitura e engenheiros da AMMVI para realizar um laudo pericial e avaliar a estrutura do antigo Posto Fiscal. Segundo o prefeito Marcelo, caso esta obra torne-se viável, a população terá participação no melhor destino para a utilização da estrutura. Sua arquitetura peculiar é uma das poucas desse estilo no país e foi projetada em 1979 pelo arquiteto uruguaio Ariel Valmaggia, herdando a técnica do também engenheiro uruguaio Eladio Dieste.
” Prefeitura de ApiúnaNossa suspeita é confirmada quando consultamos o artigo de Juliana Harumi Suzuki, entre outros exemplo de obras de Dieste e Valmaggia, ela cita Posto de Controle Fiscal em Apiúna (SC), de 1979. SUZUKI afirma que na entrada da cidade está o Posto de Controle Fiscal, projetado para que ônibus e caminhões pudessem receber inspeção e pesagem. A estrutura é composta de três abóbadas autoportantes de, aproximadamente, 8 x 33 metros em duplo balanço, sustentadas por quatro pilares alinhados no terço médio da construção, totalizando cerca de 800 m² de área.
A direção de obras foi feita pelo engenheiro Ariel Valmaggia, da filial do escritório de Dieste e Montañez em Porto Alegre. Apesar das dimensões modestas, o balanço frontal, de 17,50 metros, é o maior executado entre todas as obras de Dieste e Montañez no Brasil.
Engenheiro Estrutural Ariel Valmaggia e Engenheiro Arquiteto Eladio Dieste

O engenheiro Ariel Valmaggia transferiu-se para Brasil dois anos após a sua formatura (1977 – Montevidéu) para atuar. Em 1979, supostamente assinava o projeto do Posto de Fiscalização da Fazenda Estadual de Apiúna SC, que na verdade foi desenvolvido pelo escritório de “Dieste e Montañez Abóbadas de Tijolos Ltda” de Porto Alegre, onde atuava o engenheiro Valmaggia e foi responsável por sua execução.

Vamos observar os acontecimentos da história destes engenheiros – Dieste e ValmaggiaTudo teve início na faculdade, quando Valmaggia teve contato com a técnica construtiva cerâmica armada criada e desenvolvida pelo Engenheiro estrutural Eladio Dieste. Quando se formou em 1975, o novo engenheiro começou a trabalhar no escritório de Eladio Dieste, em Montevidéu – Uruguai, que atuava desde a década 1940. Em 1977 Valmaggia se muda para o Rio de Janeiro para trabalhar na filial de Dieste e de seu sócio, na empresa “Dieste e Montañez Abóbadas de Tijolos Ltda”, com sede nesta cidade e depois com escritório em Porto Alegre, onde Valmaggia atuava.

Desenvolveram inúmeros projetos em todo o Brasil.O engenheiro arquiteto Eladio Dieste Saint Martín nasceu em Artigas em 10 de dezembro de 1917 – e partiu em Montevidéu, Uruguai, em 20 de julho de 2000, portando atuou por mais de 50 anos. Foi considerado engenheiro arquiteto e um dos mestres da arquitetura latino-americana e criador da técnica construtiva cerâmica armada. Foi vencedor de vários prêmios. Alguns, como: Gabriela Mistral (OEA), 1990, América de Arquitetura, 199 e Honor da I Bienal Ibero-Americana de Arquitectura e Ingenieri.Acreditamos, que o projeto desenvolvido para o Posto de Fiscalização da Fazenda Estadual de Apiúna não foi feito somente por Valmaggia, uma vez que o jovem engenheiro trabalhava no escritório “Dieste e Montañez Abóbadas de Tijolos Ltda”, e fazia somente 2 anos que se encontrava no Brasil.

Há artigo que comprovam esta teoria. Também, a técnica construtiva adotada neste edifício é a da cerâmica armada, desenvolvida pelo engenheiro arquiteto Eladio Dieste e que ficou conhecido como um dos nomes da arquitetura moderna latino-americanos do século XX. Seu nome consta de qualquer estudo sério e mais profundo sobre a arquitetura latino-americana recente.Eladio Dieste Saint Martín se formou engenheiro pela Faculdade de Engenharia de Montevidéu em 1943, onde também foi docente até 1973 e onde teve contato com seu aluno Ariel Valmaggia. Em 1956, ajudou a fundar a empresa Dieste y Montañez, em sociedade com o amigo e colega de faculdadeEugenio Montañez, onde – em 1977, foi contratado o recém formado engenheiro Valmaggia.

A empresa tinha sede em Montevidéu, com filias na Espanha e no Brasil.Na empresa, Dieste criou e desenvolveu a estruturas de cerâmica armada. Entre os muitos projetos desenvolvidos pela Dieste e Montañez, executou projetos no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Alagoas, Ceará e Rondônia. Diversidade geográfica que derivou da parceria com construtoras e arquitetos notáveis, como Cláudio Luiz Araújo, Carlos Maximiliano Fayet, Clóvis Ilgenfritz, Carlos Eduardo Dias Comas, Luiz Américo Gaudenzi, Severiano Porto & Mário Emílio Ribeiro, Luiz Paulo Conde, Acácio Gil Borsói e outros.

Como já dito, Ariel Valmaggia teve contato com a técnica da cerâmica armada ainda na Faculdade de Engenharia com o professor Dieste, e no ano de 1975, recém-formado, recebeu seu convite para fazer parte da equipe de sua empresa. Após dois anos trabalhando no Uruguai, Valmaggia viajou ao Rio de Janeiro para se integrar à empresa a filial brasileira de “Dieste e Montañez Abóbadas de Tijolos Ltda”, com sede no Rio de Janeiro, na época dirigida pelo Eng. Eugenio Montañez e que tinha como chefe do departamento técnico, o Engenheiro Raul Romero. Depois, atuou no escritório de empresa em Porto Alegre, de onde acompanhou a construção do Posto de Fiscalização da Fazenda Estadual de Apiúna SC.Os detalhes da contratação do projeto – na cidade de Apiúna é uma incógnita, sobre a qual buscaremos dados.

Cerâmica Armada – Técnica construtiva

A fim de compartilhar o aprendizado desta técnica construtiva desenvolvida a partir da 1940 por Eladio Dieste e que, muito contribuiu para a formação da identidade da arquitetura produzida na América Latina, com um exemplar belíssimo presente na cidade do Vale do Itajaí, Apiúna.

Para esta tecnologia da cerâmica armada, Dieste integrou duas técnicas construtivas pre existentes – a abobada de tijolos e a abobada de concreto – para desenvolver a sua própria técnica construtiva.(…) As abóbadas cerâmicas, utilizando lajotas comuns, um dos mais antigos materiais de construção, só recentemente tiveram uma utilização mais intensa no Brasil. As abóbadas são autossustentadas e trabalham como arcos no sentido transversal e como vigas, no longitudinal, permitindo vãos econômicos de 13 m no sentido do arco e 25 m, no longitudinal. Leves e de fácil execução, não necessitam de mão-de-obra qualificada e possibilitam generosos balanços.

Econômicas, permitem um bom aproveitamento das formas, que, deslizando sob as abóbadas, podem ser utilizadas até 40 vezes (BRASIL, 1982, p.67)A abobada de tijolos recebe armaduras de ferro para vencer grandes vãos, enquanto que a casca de concreto recebe tijolos para aumentar sua eficiência construtiva. Ao unificar ambos os sistemas, Dieste ainda resolveu as fragilidades técnicas de cada uma delas. A abóbada de tijolos ganhou segurança estrutural através do uso do ferro, e a casca de concreto se tornou mais eficiente com a colocação do material tradicional – o tijolo cerâmico – que contribuiu para a redução do tempo de cura.

A elaboração dessa técnica – que tem como base a técnica tradicional de construção de abobadas trazida pelos colonizadores espanhóis para o Uruguai – levava em conta, ainda, condições locais como material disponível, domínio de um sistema construtivo, mão de obra capacitada e economia, constituindo, então, uma tecnologia própria.Para Diesti, o centro do problema enfrentado pelo projetista e construtor de edificações era o de salvar vãos e cobrir espaços, permanecendo sempre certa luta contra a gravidade.

No entanto, é justamente o peso – a força gravitacional –, quando convenientemente disposto, que torna a estrutura apta a resistir às flexões, decorrentes de cargas inevitáveis em função de fatores, como o vento.Dieste trabalhou, então, essencialmente com cinco possibilidades construtivas, geradas através da técnica da cerâmica armada, são elas: Abóbadas Gaussianas; Cascas autoportantes; Superfícies regradas; Superfícies dobradas ou superfície plissada e Torres Vazadas.A arquitetura de Apiúna é considerando a cerâmica armada – casca autoportante.

Cascas autoportante.

As cascas autoportantes são lâminas finas, compostas por uma única camada de cerâmica que, do ponto de vista da configuração estrutural, atua no sentido oposto das abóbadas gaussianas, gerando flechas maiores por se tratar de vãos significativamente menores. É mais convencional, econômica e de fácil execução que as gaussianas, mas não menos inventivas, apenas correspondem a uma necessidade programática diferente. Tem seu uso recomendado quando em projetos nos quais não há fortes restrições ao uso de pilares no espaço a ser coberto, nem à entrada de iluminação através das extremidades laterais. Neste tipo, os tijolos são dispostos de forma que as juntas longitudinais e transversais sejam contínuas, de modo que as armaduras possam ser dispostas nessas pequenas juntas. Do ponto de vista estrutural, agem em compressão transversalmente.

Já em seu maior sentido, a abóbada funciona como uma viga, cuja rigidez é dada sobretudo em função da forma estabelecida. Lembra as estrutura de Origami japonês, cuja dobradura faz surgir a resistência do material, tal qual o arco criado. Os arcos possibilitam que gere a flexa, promovida pela presença da gravidade, o que vemos no grande balanço engastado na balança de Apiúna.A estrutura da coberta acima é composta por nove abóbadas autoportantes protendidas, com duplo balanço de 10,50 metros e 10,00 metros de vão entre os apoios, possuindo uma flecha de 02,00 metros e altura total de 05,20 metros. A edificação de Apiúna possui 3 Abóbodas com balanços, igualmente.

Antigo Posto de Fiscalização da Fazenda Estadual – Apiúna

As qualidades da técnica adotada – cerâmica armada, comprova sua eficiência como técnica construtiva, pelo estado atual do Posto de Controle Fiscal de Apiúna – atualmente se encontra abandonado, isolado por uma cerca de tela metálica e embora sem uso e ignorado na paisagem, ainda está em boas condições, o que comprova sua durabilidade.Arquitetura no Vale do Itajaí,Arquitetura de Santa Catarina,Arquitetura da América Latina.

Referências

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